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O Algarve de Sotavento a Barlavento
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Via Algarviana? Via o quê? Como? Nova auto-estrada? Não!
Uwe Heitkamp (52) é jornalista, guia e formador. Vive desde 1990 em Monchique. É fundador do jornal semanal trilingue Algarve123. www.algarve123.com

Esta rota pedestre portuguesa começa em Alcoutim, uma aldeia com 971 habitantes situada nordeste do Algarve, na fronteira com Espanha. Numa das margens fica a aldeia espanhola de Sanlucar de Guadiana com as suas ruínas do castelo no alto da colina, na outra Alcoutim, com o seu castelo no centro da aldeia. No meio corre o rio Guadiana. Já no início da Idade Média ninguém confiava em ninguém. E até hoje não existe nenhuma ponte que estabeleça uma ligação de uma margem à outra. Quem quiser ir de um lado ao outro tem que chamar uma balsa dos pescadores fluviais. Para os contrabandistas, o Guadiana oferecia durante muitos séculos boas possibilidades para fazerem negócios entre si. E aproximadamente a partir do século VI, Alcoutim oferecia pela primeira vez aos peregrinos acomodação e refeições na Rota de São Vicente, que vai desde a espanhola Valência até ao europeu Cabo de São Vicente. A antiga rota peregrina, que por aqui passa, diz-se esquecida desde a ocupação do sul pelos mouros entre os séculos VIII e XII.

Somente nos últimos anos do século XX, é que a mesma rota pedestre foi primeiro percorrida pelos chamados caminheiros das quartas-feiras (The Algarve Walker, europeus do norte), e depois por alguns ambientalistas portugueses da Associação Almargem, de Loulé. Desde 2008 que a associação (que registou legalmente a marca Via Algarviana), procura estabelecer os itinerários e marcar os caminhos. Porém, infelizmente, na realidade estes objectivos foram apenas em parte conseguidos. Mas isso não me impede de fazer a caminhada. A rota oficial da Via Algarviana passa ao longo de quilómetros e quilómetros pelas ermas e feias estradas de alcatrão, e a sinalética em madeira (GR 13) é muitas das vezes incompleta e enganadora  e isso numa região repetidas vezes afligida por desastrosos incêndios florestais. Ainda assim, na busca de caminhos alternativos aos da Via Algarviana oficial, a criatividade não tem limites.

A minha Via-Algarviana desvia-se aí da rota oficial, na qual foram omitidos os verdadeiros pontos de interesse, e evita as estradas alcatroadas, sempre onde é possível. Eu procurei a floresta, onde ela ainda não foi toda queimada pelos incêndios e onde não é composta apenas por plantações industriais, eu tento evitar os eucaliptais e florestas de acácias, precisamente onde é mesmo necessário...

Qual foi a minha motivação?

Eu sou, também, um jornalista de alma e coração. A antiga rota peregrina despertou simplesmente a minha curiosidade e fascinou-me, não só porque passa directamente à porta da minha casa, na serra de Monchique. - De onde vêm e para onde vão estas pessoas que caminham à porta da minha casa de mochila às costas e bastão na mão? Eu também gosto de andar a pé, especialmente porque faz bem à saúde e porque adoro a floresta. Quando percorri este caminho pela primeira vez no ano 2007 sozinho - na altura ainda não tinha sinalética, encontrei pessoas que tinham algo que alguns de nós ainda hoje apenas sonham: muito tempo e muita sabedoria antiga. Tempo para uma boa conversa e para uma boa refeição, tempo autodeterminado e a enorme sabedoria sobre a natureza e a sobrevivência nela.

E que tipo de pessoas eu conheci nas minhas caminhadas? Muitas vezes eu encontrava velhos agricultores no terreno ermo, que ainda cultivavam os seus campos como antigamente; que viviam da severa sementeira em solo na maioria das vezes rochoso e das suas colheitas; que passeavam com os seus burros e destilavam medronho; prensavam azeite a frio; pastavam ovelhas e cabras pelos campos; faziam queijo e espremiam as uvas para fazerem o seu próprio vinho. Apanhavam cogumelos e ervas, e sabiam exactamente que plantas os aliviavam de determinada doença.

Êxodo rural

Contudo, a cada ano em que eu caminhava acompanhando pelo sol de sotavento a barlavento, estas pessoas idosas eram cada vez menos. Os jovens deixavam a sua própria aldeia sem essa sabedoria e esqueciam as suas origens tradicionais. Hoje em dia, quase todos eles vivem no litoral ou em áreas densamente povoadas de Faro e Lisboa – ou emigraram atrás do cheiro do dinheiro e do progresso...

Nos primeiros dias da minha caminhada no interior, não encontro nenhum supermercado, nenhum hotel, nenhuma rent-a-car  e nenhuns turistas. Eu atravesso terrenos numa região onde já só vivem três pessoas por quilómetro quadrado. Mas acabo sempre por encontrar aquilo que realmente procuro: o silêncio e a possibilidade de durante uma caminhada, estar completamente sozinho comigo e ser um só  com a natureza. Alguns chamam a isso meditação. Outros têm medo de envolver-se sozinhos com esta natureza. Assim, quem procura esta força e assim é capaz de caminhar a pé 328 km em 15 dias, deveria ao menos preparar se mentalmente para a sua Via-Algarviana, em Alcoutim, no Rio Guadiana, um dia antes da caminhada.

Em Alcoutim pode encontrar-se boa acomodação quer na pousada de juventude (+351 281546004, Email), quer no Hotel Estalagem do Guadiana +351 281540120, Email). Na aldeia encontram-se vários restaurantes razoavelmente bons. Eu tenho preferência pelo Restaurante Ti Afonso , na Praça da República. Quem quiser provar a gastronomia espanhola, apanha um barco pequeno a cada hora certa e come uma refeição em Sanlucar. Devemos lembrar que Espanha tem uma hora a mais que Portugal.

Cada caminhada começa com o primeiro passo. Mas o caminhante deve preparar-se bem. E qual a melhor época do ano? Eu prefiro a Primavera para uma caminhada de longa duração no sul da Europa (Abril/Maio), e alerto sempre os amantes da natureza vindos do norte para os Verões no sul de Portugal. A mudança do clima traz-nos Verões com cada vez mais frequentes ventos do levante, com temperaturas de mais de 40 graus Celsius à sombra, níveis de humidade do ar inferiores a 30% e muito elevado risco de incêndios florestais. Muitas florestas ardem porque as corporações de bombeiros estão insuficientemente equipadas, falta coordenação e as plantações de eucaliptos ao longo de muitos quilómetros favorecem cada incêndio florestal. Os riscos para a saúde, como as queimaduras solares (cancro da pele) e a insolação não devem ser subestimados. Só quem realmente pratica caminhadas extremas masoquistas, e calça as suas botas sem ser por amor à natureza e à sua beleza, é que deve escolher o verão quente: os raios durante uma tempestade têm igualmente os seus encantos, tal como a resistência através da seca e das estepes nuas e por vezes queimadas. Eu encontrei pessoas que tinham percorrido os 328 km em cinco dias, ou que praticavam uma caminhada extrema de 24 horas com 120 quilómetros. Recebo com frequência e-mails de turistas que querem fazer uma caminhada em meados de Agosto com 45 graus Celsius à sombra. Isso eu posso apenas desaconselhar.

Eu próprio sou mais de um tipo lento. O percurso de Alcoutim até ao Cabo de São Vicente, nos meses de Abril e Maio tem-me dado impressões inesperadas: cores brilhantes e aromas intensos a rosmaninho, lavanda e orquídeas silvestres. Os prados muitas vezes ainda estão verdejantes e os pastores passeiam com as suas ovelhas e cabras pelas pastagens montanhosas. Apenas a natureza e a escassez de alojamento guiam-me em todos os dias da caminhada. Os meus recordes diários ficam-se entre os 15 e os 42 quilómetros.

O que eu levo comigo numa caminhada como esta?

A tenda e o saco de cama poderiam simplesmente ser deixados em casa, porque existem possibilidades de alojamento na margem da antiga rota peregrina, e, infelizmente, continua a não existir um parque de campismo. Deve dizer-se, no entanto, que as pensões e alojamentos privados legalizados estão disponíveis apenas de forma muito limitada. Isto poderia garantir que aqui o turismo não tem hipóteses, apenas as caminhadas para amantes da natureza. No interior do Algarve praticamente não existem hotéis – exceptuando-se à regra as aldeias de Alte, Caldas de Monchique e Vila do Bispo (leia outras informações mais adiante). E para aqueles que querem mesmo pernoitar numa tenda, há que dizer que o campismo selvagem é estritamente proibido em Portugal. A autorização de um particular dono do terreno é pré- requisito indispensável para aí montar uma tenda por uma noite. Deve-se conhecer pelo menos a língua e os costumes das pessoas. Pois onde deixamos o lixo e como e onde fazemos as nossas necessidades?

Eu nas minhas caminhadas reduzi o peso da minha mochila para menos de dez quilos e tive o cuidado de transportar comigo o mínimo possível de coisas inúteis. São essenciais os calções e calças, boas meias e ainda melhor calçado, (também coisas para a chuva), garrafa de água, protectores para a cabeça, bastão, bússola, mala de primeiros-socorros, juntamente com pensos para as bolhas, kit de costura, protectores solares, pomada (para as queimaduras e para os pés), um telemóvel a funcionar, material de escrita e um bom livro, toalhas e roupas de banho, apitos, sandálias, canivetes, óculos de sol, comprimidos de magnésio e um saco com nozes, amêndoas, figos secos e passas, etc.

Geralmente, o caminhante encontra sempre na Via-Algarviana (Rota de São Vicente), em qualquer lugar o seu sítio para comer e beber, embora infelizmente continuem a não haver ainda mesas e bancos para fazer uma merenda. Em Portugal onde não existe uma cultura da caminhada, nem sempre é fácil encontrar o essencial. Este website dá-lhe informações relevantes para se orientar... grátis, é claro.

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